terça-feira, 19 de março de 2013

Nota de repúdio ao trote racista e sexista na Faculdade de Direito da UFMG


Trote racista na faculdade de Direito da UFMG. Foto compartilhada no Facebook por Thomaz Reis.

A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar 'Humanidade', relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo,  não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano,  são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores;  os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos);  procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.176/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei  9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.176/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O  que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando o espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara 'Democrático de Direito'; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês podem ler aqui: http://vestibular.uol.com.br/ultimas-noticias/2013/03/18/trote-com-saudacao-nazista-provoca-acusacoes-de-racismo-na-ufmg.jhtm

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das 'provas' era algo cometer assédio sexual.

http://www.feministacansada.com/post/44492821098

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,gincana-da-poli-incentiva--machismo-e-revolta-estudantes-,1004392,0.htm

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos) , agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/cotidiano/3104-grupo-protesta-contra-trote-machista-e-e-agredido-na-usp-sao-carlos

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada 'Ética'), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito 'Direitos Humanos'.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres;  nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência;  que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e  exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal 'brincadeira'repulsiva, lembramos:

'Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus'  -
Onde não existe justiça não pode haver direito

Assinam o presente,
·       Feministas do Cariri -  http://www.facebook.com/feministasdocariri]
·       SlutShamingDetected - http://euescolhifornicar.com/
·       Renovação Negra - http://renovacaonegra.blogspot.com.br/
·       Liga Humanista Secular do Brasil -  http://ligahumanista.org/
·       Oyá Feminista - https://www.facebook.com/OyaFeminista
·       Ogums Toques – http://ogumstoques.com/
·       Catavento –
·       Luciana Nepomuceno - http://borboletasnosolhos.blogspot.com.br/
·       Denise Arcoverde - http://sindromedeestocolmo.com/
·       Biscate Social Club - http://biscatesocialclub.com.br
·       Niara de Oliveira - http://pimentacomlimao.wordpress.com/
·       Transexualimo da depressão – https://www.facebook.com/transpatologico
·       Vertov Rox - http://we.riseup.net/vertov
·       Rádio Caruncho Fm Livre - http://caruncho.radiolivre.org/
·       Editora Artesanal Monstro dos Mares -  http://monstrodosmares.com.br
·       Cinezine Cineclube - http://cinezine.com.br
·       Centro de estudos humanistas, libertários e anarquistas - http://reinehr.org/cehla/
·       José Ricardo D' Almeida
·       Luluzinhacamp – http://luluzinhcacamp.com
·       Lucia Freitas – http://ladybugbrazil.com/
·       Blogueiras Feministas - http://blogueirasfeministas.com
·       Blogagem Coletiva da Mulher Negra - http://blogagemcoletivadamulhernegra.wordpress.com
·       Blogueiras Negras - http://blogueirasnegras.wordpress.com
·       Ativismo de Sofá - http://ativismodesofa.blogspot.com.br
·       Mulheres Notáveis - http://mulheres-incriveis.blogspot.com.br/
·       Ofensiva contra o machismo - http://contramachismo.wordpress.com/
·       Chopinho Feminino - http://chopinhofeminino.blogspot.com.br/
·       Gilson Moura Henrique Junior - http://natransversaldotempo.wordpress.com/
·       Marcha das Vadias BH - http://slutwalkbh.blogspot.com.br/
·       Machismo chato - http://machismochatodecadadia.tumblr.com/
·       Bidê Brasil - http://bdbrasil.org/
·       Entre Luma e Frida - http://entrelumaefrida.com.br/
·       Escreva Lola Escreva - http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/
·       Cozinha da Matilde - http://www.cozinhadamatilde.com.br/
·       Larissa Santiago - http://mundovao.blogspot.com.br/
·       Questões Plurais - http://questoesplurais.tumblr.com/
·       Gordas e feministas - https://www.facebook.com/gordasefeministas
·       Preta & Gorda - https://www.facebook.com/PretaeGorda
·       Gizelli Souza –  http://twitter.com/gizasousa
·       Cecília Santos – http://www.cozinhadaceci.com.br/
·       Mulheres em Movimento Mudam o Mundo - http://mmm-rs.blogspot.com.br/
·       Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte - http://bhemciclo.org/

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012

A cerveja é para brindar às amigas lindas que me inspiram!
2012 foi um ano de equilíbrio entre coisas boas e outras nem tanto. Foi um ano de fortalecimento e auto-descobertas. Mas um ano com saldo positivo.

Em 2012 eu descobri que não tinha um batom vermelho há mais de 2 décadas. Não tinha mas agora tenho.

Em 2012 eu dancei pra valer. Como se não houvesse amanhã. Nem pessoas olhando.

Em 2012 eu conheci Brasília, senti orgulho e não aceito mais que falem mal do meu país.

Em 2012 eu aprendi a fotografar. E descobri que a fotografia tem tanta força quanto a palavra. Até mais. Para o bem ou para o mal.

2012 não foi um ano bom para todo mundo, não. Teve amiga lutando contra o câncer (e venceu!), mudando de emprego, terminando namoro, passando por perrengues de diferentes proporções.  Não se deixaram abater. Sambaram na cara da adversidade. E teve gente conquistando tantas coisas legais, tantas!


Teve a amiga que voltou e foi tão bom. Teve aquela que não voltou e eu parei de me importar. Teve amigas novas, várias. Teve amig@s indo pra longe e deixando tanta saudade de abraço.


Teve criança nascendo e botando no mundo mães e pais que estão reinventando um mundo de coisas.

Em 2012 o Lucas atingiu a maioridade, terminou a escola e conquistou mais autonomia. Lindo, honesto, crítico, amoroso. Está pronto para alçar voos mais altos.


Em 2012 teve doença mas também teve festas, encontros e abraços. Houve desentendimentos mas senti mais coragem para defender meus pontos de vista e mais discernimento pra rejeitar as lutas que não valiam a pena.


Em 2012 eu disse e ouvi euteamo muitas vezes a tanta gente e chorei de emoção com uma frequência incrível.

Se amizade tivesse valor de mercado, eu poderia dizer que foi um ano de lucros excepcionais. Quer dizer, com o filho maravilhoso e @s amig@s que eu tenho, eu posso querer mais o quê em 2013? Só continuar viva e minimamente saudável para aproveitar tudo isso, né?

Feliz 2013!


sábado, 24 de novembro de 2012

As irmãs Mirabal

Este ano uma amiga me emprestou um livro sobre as Irmãs Mirabal, "En el Tiempo de las Mariposas", de Julia Alvarez. Depois me emprestou "A Festa do Bode", de Mario Vargas Llosa. O cenário de ambos é a ditadura de Rafael Trujillo que vigorou na República Dominicana de 1930 a 1961.

Foram duas leituras das quais jamais vou me esquecer. A única coisa que eu sabia até então era que a ONU havia declarado 25 de novembro o Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra a Mulher, por ser a data do assassinato das irmãs Pátria, Minerva e Teresa Mirabal.

Não existe ditadura sem violência e supressão de direitos. Mas Trujillo ia muito além: não se limitava a perseguir, aprisionar, torturar e assassinar seus opositores. Em sua obra, Vargas Llosa conta que Trujillo explorava sexualmente mulheres de todas as idades e condições, meninas, jovens, mulheres maduras, inclusive filhas e esposas de seus aliados.

Pátria, Minerva e Teresa Mirabal participavam de uma organização secreta de oposição à ditadura. Perderam suas propriedades, foram presas, torturadas, e finalmente assassinadas numa emboscada, a mando de Trujillo. Mas a morte delas, em vez de desmantelar a oposição, gerou uma enorme revolta na República Dominicana, que culminou com o assassinato de Trujillo no ano seguinte.

As Irmãs Mirabal simbolizam ao mesmo tempo a coragem e a resistência das mulheres e a violência covarde que vitima tantas de nós todos os dias. O Mapa da Violência 2012 mostra que, mesmo com a Lei Maria da Penha, os assassinatos de mulheres continuam a crescer, e o Brasil ocupa o 7o. lugar nas taxas de homicídios femininos.

Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa, alerta:
"Há uma falta de consciência com relação ao problema e existe ainda a tolerância institucional que torna a vítima culpada. Existem mecanismos que justificam os crimes contra as mulheres, como por exemplo, dizer que algumas mulheres se vestem como vadias e por isso acabam sendo estupradas. É como se uma dose de violência contra a mulher fosse aceitável e até necessário."
Combater a violência contra a mulher é responsabilidade de todos e todas. Às vezes nem percebemos o quanto estamos legitimando a violência, ao julgarmos uma mulher por suas atitudes ou suas roupas; ao aplaudirmos o castigo físico de uma vilã nas novelas ou filmes; ao criarmos de maneiras diferentes nossos filhos e filhas.

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A querida Charô organizou a Blogagem Coletiva Mulher Negra, que começou no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, e vai até 25 de novembro, Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra a Mulher. É extremamente necessário discutirmos o racismo e ouvirmos a voz de tantas mulheres que sofrem violência e discriminação que nós, mulheres brancas, não conseguimos sequer imaginar. A Blogagem Coletiva está divulgando textos maravilhosos.

Destaco o texto da Larissa Januário, jornalista especializada em gastronomia. Ela questiona o espaço que ainda hoje tem sido reservado a tantas mulheres negras na nossa sociedade: a cozinha, a lavanderia, a vergonhosa entrada de serviço que a maioria dos edifícios de classe média/alta de São Paulo insiste em manter. E por que não nos espanta que, embora nas histórias de Monteiro Lobato que povoaram a infância de tant@s de nós, a Tia Nastácia tenha sido sempre a estrela da culinária, uma das mais famosas obras culinárias nacionais leve o nome e a imagem de sua patroa branca, a Dona Benta. Se isso não é racismo, não sei o que pode ser.

A Tia Nastácia e o pé na cozinha.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Missão quase cumprida


Desde algum tempo antes do Lucas nascer eu pensei na educação dele. Naquela época eu trabalhava na indústria, e tinha 3 opções para quando terminasse a licença-maternidade: escola, babá, avó. Nessa ordem. Acabou que não foi nenhuma das três: eu saí do emprego, mudei de profissão e passei a trabalhar em casa.

Ele só foi para a escolinha, e ainda assim só meio período, aos 2 anos. E as minhas demandas variavam em cada fase da vida escolar dele: no início, a preocupação era encontrar uma escola onde ele fosse feliz, tratado como um igual e ao mesmo tempo tendo suas particularidades respeitadas. Mais tarde, o importante era uma boa formação acadêmica e cultural. E finalmente, uma escola que proporcionasse não só formação educacional mas também política e social.

E foram 17 anos de escola. Muitas mensalidades pagas. E outras tantas despesas. Excursões, viagens de campo. O lanche, a lancheira, o dinheiro da cantina. As listas de material, massinha, grafite, fichário. Uniforme, de frio, de calor, melhor ainda quando não tinha mais uniforme. Reuniões de pais, que quase sempre eram mesmo reuniões de mães. O transporte escolar, depois o transporte público. Uma infinidade de gente que passou pela nossa vida, colegas, professores, coordenadores, monitores, a telefonista simpática, a diretora de olhar brilhante, a tutora que virou amiga. Os boletins, as conquistas, as decepções, a ansiedade antes das provas. Consolar, elogiar, estimular, dar bronca, conversar, conversar, conversar mais, aconselhar. Muitas perguntas para poucas e lacônicas respostas: ´

- E aí, filho, como foi a [insira aqui: prova, viagem de campo, excursão, etc.]
- Tudo bem.
- Tudo bem como, filho?
- Ah, tudo bem, mãe.

E agora faltam menos de duas semanas para acabar. Pago a penúltima mensalidade. Os preparativos para a formatura. Enem, Fuvest. Começa a arrumação do material, esses livros não vão mais ser necessários. Semana que vem é a última aula da tutora, depois de tantos anos.

Claro que não acabou pra ele, ainda tem muito chão. Mas de certa forma, meu trabalho está chegando ao fim. Não me cabe mais escolher escola, comprar caneta, cobrar as notas. Obviamente ainda vou custear muita coisa, apoiar sempre, discutir os caminhos junto com ele.

É uma sensação meio estranha, sabe? Depois de anos ocupada e preocupada, eu começo a me liberar. Mas às vezes me sinto meio sem rumo, redescobrindo o que fazer do tempo que agora é só meu. Sábado, enquanto ele fazia a prova do Enem, eu pedalava no parque, sem compromisso nem horário. Tentando não me sentir fora de lugar.

E me teletransporto para meus anos de solteira, ir para onde quisesse, quando e como quisesse. Mas nada é como antes. Naquele tempo eu sequer sonhava que fecharia esse ciclo na companhia do filho que construiu comigo uma história tão linda!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Faz 23 anos que eu tive 23 anos


A Marília foi quem começou a brincadeira no Facebook e no começo eu praticamente tomei um susto com meu número tão alto. Mesmo porque parece que eu sou mais velha do que todo mundo que eu conheço. Com frequência, uma diferença de 2 décadas.

Mas depois de amanhã vai fazer 23 anos que eu fiz 23 anos. Onde eu estava nesse ano tão distante de 1989, um bocado de tempo antes de acabar o século passado?

Acho que foi o ano em que conheci o Luiz, meu ex-marido. Então foi um ano de romance, mas também de mudanças, porque foi mais ou menos quando eu parei de sair com caras que só queriam impressionar.

Comemorei meu aniversário de 23 com amigos num restaurante no baixo Augusta. Eu estava usando um chapéu de feltro marrom. Todo mundo era estranho nessa época.

Naquela época eu sabia o que não queria mais ser - secretária - mas não sabia o que queria ser. Depois virei tradutora, que é o que eu sou até hoje, mas nesse percurso sinuoso tive 2 empresas que faliram, flertei com o mundinho acadêmico, deu aula e fui confeiteira nas horas vagas.

Aos 23 eu brigava muito com a minha mãe e não parava em casa. Queria viajar e morar sozinha, mas não tinha disciplina para guardar dinheiro. Minha amiga de infância ainda não tinha me relegado ao ostracismo, esse lugar que eu nunca soube o que fiz para merecer. Eu tinha uma carinha bonita e a cabeça vazia. Quem dera ter a cabeça de 46 no corpo de 23!

E mais 23 anos se passaram: casei, descasei, vivi um longo e emocionante amor à distância que se acabou. Criei meu filho, que está virando um homem valente e amoroso. Passou um mundo de gente pela minha vida que se eu encontrar na rua, não vou lembrar o nome da maioria.

E sigo começando coisas como se tivesse 23 de novo: andar de bicicleta, fazer um curso de fotografia, pintar as unhas de azul. Na cabeça, a música dos Titãs: "não vou me adaptar".

quarta-feira, 6 de junho de 2012

18 anos do Lucas


Amado filho,

Hoje você faz 18 anos e legalmente torna-se adulto: pode ter conta bancária, bens ou emprego sem precisar de autorização, pode beber, tirar habilitação para dirigir, ser responsabilizado por seus atos. Votar, você já vota desde os 16, para meu orgulho.

Você ter se tornado adulto significa que, de certo modo, eu estou me diplomando da tarefa de te criar e educar. E essa foi a aventura mais incrível da minha vida, que me levou a me reinventar como pessoa!  Muitas dúvidas eu tive, consciente de que as minhas ações estavam ajudando a definir o adulto que você se tornaria, criando marcas boas e ruins.  Também tive medos e me frustrei pelo que não consegui fazer, como te habituar a comer comida saudável. Não tive muita paciência para brincar com você, muitas vezes estive fechada nos meus próprios prazeres e problemas. Tantas vezes nos privamos de coisas bacanas, porque a grana era curta, e você sempre  paciente e compreensivo. Tivemos momentos difíceis, tantos dias e noites em hospitais, eu me fortalecendo em você quando tinha que ser o contrário! Brigamos tantas vezes pelo Facebook ou nas manhãs em que você estava atrasado para a escola. Discutimos sobre quem  lavaria a louça, e tantas vezes eu disse que era para fazer porque sim e pronto.


E também tivemos momentos incríveis de companheirismo. Como naquela viagem maluca para Gonçalves, quando parecia que a gente nunca ia chegar. Ou quando fomos os dois sozinhos fechar o contrato da compra do apartamento, o passo mais ousado da minha vida, que eu fiz questão de tomar sem tutela, só com o seu apoio de menino de 11 anos. Ou ainda quando a Pitanga nasceu embaixo da sua cama!

Nunca deixei de sentir a força dos seus bracinhos de bebê ao redor do meu pescoço, me apertando pra valer! Nunca me esqueci de como você ria até passar mal. Do livro de conselhos que você me escreveu. Daquela caça ao tesouro maluca que você fez para eu encontrar meu presente do dia das mães. De quando a Giovana cortou a sua franja. Do tanto que você brigou comigo quando me perguntou se eu era a fada dos dentes e eu disse que sim - mas aí seu dente do siso já estava quase nascendo, né?

E olha que adulto incrível você se tornou! Um cara que respeita todo mundo, um amigo fiel, responsável em todos os sentidos! Inteligente e independente. Amoroso, modelo para os seus irmãozinhos, filho perfeito!

Daqui para a frente a sua vida estará cada vez mais nas suas mãos. Eu e todas as pessoas que fizeram parte dos seus 18 anos - seu pai, a Dani, seus avós, seus tios e primos, professores e amigos - plantamos as sementes de que dispúnhamos, e acho que foram boas sementes, porque agora o adulto que está florescendo é uma pessoa honesta, íntegra e comprometida com o respeito ao ser humano.

Meu coração está transbordante de desejos para a sua vida de adulto: muito amor, amigos, muita saúde, uma carreira bem-sucedida, uma vida tranquila, valores humanistas sólidos!

Todo o amor do mundo para você, filho!


sexta-feira, 23 de março de 2012

De bike, porque a rua é de todxs!

Então este ano eu comecei a pedalar pra valer, com o incentivo de amigas cicloativistas, como a Ana, a Vevê e a Jeanne. No começo eu pedalava pequenas distâncias, para ir ao parque ou ao supermercado, subindo as ladeiras com muita dificuldade, às vezes empurrando. Daí percebi que precisava treinar e me condicionar. E de repente a coisa toda ficou incrivelmente divertida.

Pedalar é uma multiplicidade de coisas: é exercício físico; é prazer e diversão; é desafio; é liberdade; e é também uma maneira totalmente diferente de se colocar no mundo.



Há 4 anos não tenho mais carro e, ao mesmo tempo que ele tornou-se dispensável na maioria das situações, eu passei a desenvolver uma relação totalmente diferente com o meu tempo e o espaço da cidade. Antes eu estava sempre apressada para resolver várias coisas num curto espaço de tempo, e a minha rotina acabava sendo desorganizada. Hoje meus deslocamentos até levam mais tempo, mas eu planejo tudo melhor e vivo com menos stress. Sei que parece difícil de acreditar, porque a gente vive numa cultura carrocrática que não concebe outras maneiras de deslocamento. Não estou dizendo que é opção para todo mundo. E claro, na época, vender o carro foi uma decisão tomada por motivos econômicos, mas deu tão certo que eu não penso mais em comprar carro no futuro. E quando não é prático ou possível usar o transporte coletivo ou ir a pé ou de bike, eu faço como a Angélica: vou de táxi.

Onde pedalar? Aos poucos vou explorando as possibilidades de pedalar na cidade: primeiro foi a Ciclofaixa de Lazer, que funciona aos domingos. Pedalei algumas vezes do Parque Villa-Lobos ao Parque do Ibirapuera. Aos poucos vou ganhando as ruas, abrindo meu espaço entre os carros. Começo a participar de um ou outro pedal, ou seja, um grupo de ciclistas que sai para pedalar junto, o que é ao mesmo tempo divertido e seguro. E tenho treinado na ciclovia do Rio Pinheiros.

Da primeira vez que pedalei na ciclovia do Rio Pinheiros, fiquei surpresa com a paisagem inusitada. Duvido que quem passa pela Marginal consegue sequer reparar nas pequenas belezas da margem do rio, que tem uma vegetação bonita e bem cuidada. Mas do ponto mais baixo da ciclovia, a vista é melhor ainda. Falta, obviamente, despoluir o rio, se é que aquele esgoto a céu aberto pode ser chamado de rio. Imagine como seria perfeito ter um rio limpo e navegável cortando a cidade!

Dá pra acreditar que esta paisagem existe no meio da cidade?
A bicicleta pode ser uma fonte de desafios, que me contagiou também. A gente quer ir mais longe e mais rápido, se aventurar por lugares incomuns, superar a si mesma o tempo todo. Neste final de semana minha amiga Vevê vai participar da prova Audax, desta vez com 200 km. Ela é uma das poucas mulheres a participar da prova e já está arrasando nos treinos.

Também não tem idade para pedalar. Tenho visto gente de toda idade, desde bebês nas cadeirinhas dos pais ou mães até gente de mais idade. Mulheres tem muitas também, menos que homens, não sei por quê. Mas existem vários grupos de mulheres que pedalam, inclusive um que sai semanalmente há 20 anos, o Saia na Noite.

Movimento Articulado. Aos poucos estou descobrindo que a comunidade de bikers é muito articulada e composta por inúmeros coletivos que estão aí, discutindo a questão fundamental da mobilidade, ou ajudando mais gente a pedalar, como no caso das Pedalinas e Bike Anjo,  projetos que ensinam mais gente a pedalar, o Coletivas, criado para disponibilizar bicicletas em caráter temporário para quem quer pedalar, ou a Oficina Mão na Roda, um projeto de oficina comunitária para a manutenção de bicicletas. A ciclista que morreu ontem fazia parte de um coletivo muito bacana, o Pedal Verde, que sai de bike pela cidade plantando mudas de árvores pela cidade.

Acho que poucos grupos são tão organizados e unidos hoje na sociedade como os cicloativistas. Também é um alento saber que tem uma moçadinha nova aí debatendo políticas públicas, contrariando a ideia de que essas gerações mais novas são apáticas e alienadas.

A rua é de todxs. Como pedalar também é um ato político, juntamos um punhado de feministas cicloativistas e organizamos uma manifestação que vai acontecer no próximo domingo: um grupo vai pedalar desde a Paulista, outro vai caminhando, e vamos fazer um piquenique no Ibirapuera. O tema da manifestação é nosso protesto contra o assédio nas ruas e a conscientização da necessidade de mais segurança para todos no espaço da cidade, pedestres, ciclistas e os próprios motoristas, que muitas vezes são vítimas de outros motoristas imprudentes. Queremos pedir segurança para todos e todas: mulheres que são vítimas de cantadas, assédio e estupro até no transporte coletivo, e gays e lésbicas que são espancados nas ruas.

A cidade continua a ser pensada mais para os carros do que para as pessoas. E não é assim que deve ser. Uma cidade realmente democrática é vantajosa de todos os pontos de vista: as pessoas são mais felizes e até se torna mais atraente para os negócios, como mostra este relato sobre a bem-sucedida experiência de Copenhague.